LABIRINTOS
Uma voz de degraus — inalcançáveis — está presa no porão dos pensamentos.
Há muito tempo, quando ninguém sabia se pode mastigar o tempo (as horas são ainda mais mastigáveis), ela já estava lá.
Na infância, tinha dentes. Presas de cristal... Era o tato e todos os dedos do mundo formigas estranguladas nuvens de baralhos do céu carrosséis berrantes da alegria.
(Às vezes, disfarçava-se de saltos e, em cima das árvores, perseguia pipas).
Na adolescência, piscava aos vaga-lumes. Cheiro de enxame, gosto de fumaça, censura de pêlos e textura de ferida lívida. A voz, epílogo de beijos (sufocados de sonhos em capítulos rosas).
Hoje, a voz, só uma música. Sem cor e gosto de terra: fala palavra, cospe sílaba. Um buraco de ecos. Degraus inalcançáveis, sepulcros de memórias de framboesas.
envio: poesia.net www.algumapoesia.com.br Carlos Machado, 2007
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